Era um dos melhores cabistas que telefonia que conheci durante a minha jornada de engenheiro eclético. Era comunicativo cheio de histórias, acabara de ser demitido de uma estatal do ramo de telefone e ainda possuía muitos contatos lá dentro. Vira e mexe ele aparecia lá no DEPRO com alguns telefones de última geração, desviados daquela empresa, nos oferecendo a preços módicos sempre com a afirmação de que estava ganhando a vida honestamente. Assim, foi a primeira pessoa das muitas que conheci em Brasília que "roubava honestamente", pois se era do poder público e era só um desvio.... um mal menor.
Como eu era engenheiro mecânico recém formado e não sabia praticamente nada de telefonia eu me deliciava em aprender as novas técnicas de blocos de corte e etc. Ele era, também, um bom conselheiro. Certo dia eu cheguei ao trabalho falando que queria adotar um filho e ele logo me aconselhou – ‘’Não faz isso não cara ... Você tem a vida tão boa e com uma criança só vai complicar tua vida. Você leva ela para chácara ela cai no buraco ... vai lhe tirar o sossego. Eu logo retruquei : mas la na minha chácara não tem buracos não . E ele treplicou: “ mas ele cava e cai``.
Já com mais experiência fui resolver um grave problema de comunicação no PAB HRC e adivinhe quem foi o cabista que escolhi para resolver tão delicada situação : o melhor... o Batata. Chegamos ao Hospital da Ceilândia por volta das 14: 00 e após alguns testes resolvemos passar outro cabo, pois o existente estava muito desgastado e quase não existiam mais pares disponíveis. Tentamos passar um fio guia e não conseguimos então resolvemos puxar o cabo existente para usa-lo com guia.
Rapaz!!!! Quando eu fiz uma canga para forçar o cabo geral do hospital o cabo de 60 pares que atendia a todos os setores daquela unidade de saúde ele estava tão podre que se rompeu e deixou todo mundo sem comunicação e sem telefone...... E o pior estava por vir, o DG (quadro geral de telefone) foi projetado por outro filho da mãe e era localizado dentro do centro obstétrico do hospital.
Tivemos que vestir aquelas roupas verdes, isolar as botinas e enrolar o Batata em lençóis pois não existia roupas esterilizadas do tamanho dele. Trabalhar num stress daquele foi desesperador. Toda hora vinha um médico, ou administrador do hospital, ou chefe da enfermaria nos passar uma descompostura. Tem um amigo que afirma que todo médico quando esta fazendo o curso acha que é Deus e depois de formado, aí tem certeza. Pense numa arrogância e ainda mais com razão!!!!
Quando começamos a trabalhar protegidos apenas por um biombo das salas de parto começou a nascer gente. Para nós que não estávamos sentindo a dor do parto era muito engraçado o comportamento das senhoras ao darem a luz. Tinha umas que apelavam para Deus e juravam nunca mais engravidar.... Tinha outras que xingavam o médico esbravejando e jurando que iam dar uma facada nele se ele não tirasse o dedo do seu/sua ... Eu sei era que tinha hora que estávamos todos de pescoço comprido a espiar por trás do biombo para ver os acontecidos e a médica nos olhava com olhar de censura e nós apressadamente voltávamos a trabalhar.
Eu que não sabia crimpar os cabos resolvi contabilizar os nascimentos e a observar os procedimentos da médica a partir das 03:00 PM e me senti pequenininho comparando meu trabalho com o dela.
Mas uma coisa me chamou a atenção. Era mês de junho e em Brasília, o mês das temperaturas mais baixas. A médica pegava a criança que acabara de nascer, encolhidinha de frio, pois saíra de uma temperatura bem mais alta da barriga da mãe e passava para a enfermeira que fazia alguns procedimentos de limpeza e identificação: A criança que vinha encolhida começava a relaxar e ia espichando até atingir seu tamanho normal. Então era levada a uma balança com prato em inox e tomava outro choque térmico reduzindo seu tamanho em pelo menos 40 % novamente.
Assim, nesse samba do estica e puxa, quando amenizamos a situação do telefone o Batata perguntou quantas crianças tinham nascido, eu respondi 17, com as mais variadas matizes e rações. O otário aqui a fazer o seu censo particular de quantas crianças são necessárias para trocar um cabo telefônico de 60 pares.
